Monday, October 30, 2006

Queria condensar toda a minha raiva, a minha ira, num só grito. Queria poder soltá-lo grave e denso, e com ele fazer estremecer o mundo, abanar a estrutura opaca e rude que envolve e humanidade. Fazer cair por terra dogmas... acordar toda a gente deste sonambulismo autista, desta letargia egoísta e só...
Queria ter a coragem, ou o despeito, de agitar com um só grito as mais enraizadas hipocrisias... Mas ao abrir a boca e soltar os pulmões, sai um grito mudo, um tiro de pólvora seca.
Mas sonho que um dia, talvez um dia, ao meu grito se junte outro, e outro ainda e outros se vão unindo e, em uníssono, ecoando pela terra e mar ... e todos vão erguendo, o corpo e a voz... sem temor.
saudade é, por vezes, tão intensa que parece sufocar-me. Faz-me desejar rasgar as carnes do meu corpo e abrir o peito, ansiando por ar fresco. É como se algo me queimasse por dentro e me roesse o peito fogueante e dormente.
Este exasperante sentir vai-me corroendo, dia após dia, como a água do mar na rocha.
Depois, revejo-te numa palavra, numa música, num sorriso... e quase sinto os teus braços envolvendo o meu tronco... Espero ainda o impossível, espero que entres pela porta e ilumines a sala com o teu sorriso...
Acordo ao sentir a água fria, salgada de mar, correr-me dos olhos até se precipitar do queixo.
Em mim existirás eternamente, perdurarás para além do tempo...
A noite estava quente e calma... Ouvia-se apenas, e raramente, o ladrar dos cães à desgarrada. Ou então os passos apressados de alguém que já perdera horas de sono, talvez um amante tardio ou um ferforoso trabalhador.
Eu fixava os olhos no negro céu, pontilhado por estrelas incógnitas e distantes, através do pequeno rectângulo da janela do quarto.
Estava demasiado calor para que conseguisse dormir... decidi dar voz à insónia.
A lua, que ainda não ia alta, assemelhava-se a uma enorme talhada de melão. O quarto-minguante, aquele que antecede a lua nova e o início de um novo ciclo. Talvez seja um novo ciclo que se avizinha, talvez seja isso que eu ambiciono.
Enchi um copo com vinho verde, quase gelado. Dei comigo a procurar o brilho dos teus olhos nas estrelas perdidas. Senti a falta que me fazes. Quis saber se também te faço falta, mas a resposta, acho que se perdeu no tempo, nunca chegará...
De resto, a lua nova, está quase a chegar...

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