Monday, October 30, 2006

Abri o meu armário... deixei-o apanhar ar, respirar o ar fresco. Um pensamento apoderou-se de mim, lentamente, sem eu notar. Será que aquele céu negro salpicado de estrelas, que tantas vezes nos serviu de tecto ainda existe. Será que aquela lua que nos deixava adivinhar os contornos dos nossos corpos ainda ilumina. E o som daquele mar que usamos como música... Será que tudo remanesce, constante, e apenas nós divergimos...
Abri todas as janelas, deixei o sol entrar, depois, abri as gavetas e portas, do meu armário, deixei o sol tocar-lhe, levemente...
Entre todas as coisas, uma folha de papel reflectia o sol de um modo diferente... fixei nele o meu olhar... umas pequenas letras azuis salpicavam o papel ainda branco...

"Andava eu a vaguear pelas ruas perdido,
Entre cervejas e cigarros e outras coisas mais.
A maior parte das coisas não fazia sentido
E o resto fazia sentido até demais.

De mochila às costas cheia de desespero,
Vazia de esperança, de fé e alegria,
Perdido na luta, eu não sei o que quero,
Tenho nada nos bolsos e a barriga vazia.

Encontrei-te no passeio de uma rua qualquer,
De uma cidade em que não interessa o nome,
Disseste "conta comigo p'ró que der e vier"
E com palavras tentaste matar-me a fome.

E tu que já soubeste o significado
De palavras como amor e gratidão,
Caminhas, agora, com o corpo curvado
E a vida entregue à solidão.

Partimos a tristeza em duas partes iguais
E dividimos irmamente a fome pelos dois.
Disseste "sorri, agora tens-me não cais"
E os nossos olhos brilharam como 4 sóis."

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