Monday, October 30, 2006

A razão nem sempre me acompanha.
Por vezes a ira toma conta de mim e tira-me o discernimento.
A razão nem sempre é boa conselheira.
Por vezes desejo deixar-me levar pelo inconsciente sentido.
Depois pergunto-me de onde me vem este sentimento, tão desajeitado mas febril, agudo e descontinuado que me consome e aleija.
Fico quieto esperando a pontada cruel que parece antecipar-se a cada vez... O corpo, ainda que vigoroso, parece desfalecer por comungar a dor d¿alma... O peito parece mirrar e os punhos cerram-se como se tentassem encerrar a dor.
Então a pequena gota de água e cloreto de sódio precipita-se lentamente, deixando um rasto de frescura no caminho por onde passa.
Depois inunda-me a calma... não sei se por ter conseguido condensar toda aquela dor numa pequena gota de água e cloreto de sódio... se por apesar de não lhe conhecer a raíz lhe sentir o fruto, fresco, que desliza lentamente pelo rosto.
E tudo pode parecer efémero e fútil, inútil e inócuo...
E tudo pode aparecer quando olhamos bem para dentro, bem fundo, como quem tenta ver para além do horizonte...

A chuva cai. Ouço o som distinto das gotas de água a baterem nas vidraças.
Depois escorrem lentamente como lágrimas até se precipitarem do beiral da janela.
Os meus olhos lançam-se para as negras letras que adornam as folhas brancas que seguro entre mãos.
Acaso ou não, o poema do Pessoa descreve com mais veemência o que sinto e o que, no exacto momento, sou, do que eu o poderia sentir...

"Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não,
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração."

Por vezes sinto-me perdido, como que à deriva.
E nem sequer consigo ficar parado até recuperar o sentido de orientação... Caminho ainda mais apressadamente.
Como se caminhasse ébrio e os passos se precipitassem perante a eminência da queda, no desespero de recuperar o equilibrio.
Nos últimos dias tenho corrido para lado nenhum... corro apenas, sem destino...Sinto que não posso parar.
Ao passar, todos os rostos me parecem iguais, todas as ruas são iguais, todos os caminhos se repetem... como num erro cíclico...numa espiral em rotação.
Mas sinto que aquilo a que fujo...não consigo deixar para trás...
Abri o meu armário... deixei-o apanhar ar, respirar o ar fresco. Um pensamento apoderou-se de mim, lentamente, sem eu notar. Será que aquele céu negro salpicado de estrelas, que tantas vezes nos serviu de tecto ainda existe. Será que aquela lua que nos deixava adivinhar os contornos dos nossos corpos ainda ilumina. E o som daquele mar que usamos como música... Será que tudo remanesce, constante, e apenas nós divergimos...
Abri todas as janelas, deixei o sol entrar, depois, abri as gavetas e portas, do meu armário, deixei o sol tocar-lhe, levemente...
Entre todas as coisas, uma folha de papel reflectia o sol de um modo diferente... fixei nele o meu olhar... umas pequenas letras azuis salpicavam o papel ainda branco...

"Andava eu a vaguear pelas ruas perdido,
Entre cervejas e cigarros e outras coisas mais.
A maior parte das coisas não fazia sentido
E o resto fazia sentido até demais.

De mochila às costas cheia de desespero,
Vazia de esperança, de fé e alegria,
Perdido na luta, eu não sei o que quero,
Tenho nada nos bolsos e a barriga vazia.

Encontrei-te no passeio de uma rua qualquer,
De uma cidade em que não interessa o nome,
Disseste "conta comigo p'ró que der e vier"
E com palavras tentaste matar-me a fome.

E tu que já soubeste o significado
De palavras como amor e gratidão,
Caminhas, agora, com o corpo curvado
E a vida entregue à solidão.

Partimos a tristeza em duas partes iguais
E dividimos irmamente a fome pelos dois.
Disseste "sorri, agora tens-me não cais"
E os nossos olhos brilharam como 4 sóis."
Gostava um dia de, ao acordar, sentir-me outro. De renascer, de alma lavada e rosto abertamente sorridente,diferente, mais forte.
Queria despir este semblante pesado, abandonar ao vento o meu pobre karma.
Não é o elixir da juventude que anseio... é uma nova vida, a possibilidade de começar do zero, partir do nada.
Como voltar a clepsidra, de novo, e ver a areia recomeçar a cair...lentamente.
Quis apenas saborear a calma e o silêncio da solidão. Não te quis deixar...
Desejava a paz, a magna força do reencontro comigo mesmo...
Precisava do equilibrio...
Não te queria magoar... não queria sequer fazer-te sentir a minha falta.
Dizem que a solidão me fica bem... Talvez porque a tive por companheira durante muito tempo... Talvez porque a conheço bem, feia, mas doce... Dela fiz musa, companheira, apoiante e confidente. Nela reconheci quem sou, assegurei a forma e o verbo, construí um caminho.
Mas sinto os tempos propícios à mudança... talvez seja desta vez...
Queria condensar toda a minha raiva, a minha ira, num só grito. Queria poder soltá-lo grave e denso, e com ele fazer estremecer o mundo, abanar a estrutura opaca e rude que envolve e humanidade. Fazer cair por terra dogmas... acordar toda a gente deste sonambulismo autista, desta letargia egoísta e só...
Queria ter a coragem, ou o despeito, de agitar com um só grito as mais enraizadas hipocrisias... Mas ao abrir a boca e soltar os pulmões, sai um grito mudo, um tiro de pólvora seca.
Mas sonho que um dia, talvez um dia, ao meu grito se junte outro, e outro ainda e outros se vão unindo e, em uníssono, ecoando pela terra e mar ... e todos vão erguendo, o corpo e a voz... sem temor.
saudade é, por vezes, tão intensa que parece sufocar-me. Faz-me desejar rasgar as carnes do meu corpo e abrir o peito, ansiando por ar fresco. É como se algo me queimasse por dentro e me roesse o peito fogueante e dormente.
Este exasperante sentir vai-me corroendo, dia após dia, como a água do mar na rocha.
Depois, revejo-te numa palavra, numa música, num sorriso... e quase sinto os teus braços envolvendo o meu tronco... Espero ainda o impossível, espero que entres pela porta e ilumines a sala com o teu sorriso...
Acordo ao sentir a água fria, salgada de mar, correr-me dos olhos até se precipitar do queixo.
Em mim existirás eternamente, perdurarás para além do tempo...
A noite estava quente e calma... Ouvia-se apenas, e raramente, o ladrar dos cães à desgarrada. Ou então os passos apressados de alguém que já perdera horas de sono, talvez um amante tardio ou um ferforoso trabalhador.
Eu fixava os olhos no negro céu, pontilhado por estrelas incógnitas e distantes, através do pequeno rectângulo da janela do quarto.
Estava demasiado calor para que conseguisse dormir... decidi dar voz à insónia.
A lua, que ainda não ia alta, assemelhava-se a uma enorme talhada de melão. O quarto-minguante, aquele que antecede a lua nova e o início de um novo ciclo. Talvez seja um novo ciclo que se avizinha, talvez seja isso que eu ambiciono.
Enchi um copo com vinho verde, quase gelado. Dei comigo a procurar o brilho dos teus olhos nas estrelas perdidas. Senti a falta que me fazes. Quis saber se também te faço falta, mas a resposta, acho que se perdeu no tempo, nunca chegará...
De resto, a lua nova, está quase a chegar...
Todo este tempo fiquei a gozar a inércia, deixei-me embalar no seu canto plácido e contagiante.
A perguiça deixou-me entre a promessa e o desejo, parado ... sem acção...
Preso no visco dos dias fúteis, não me consegui libertar da pausa amorfa.
Relutante e tímido retomei a obra ... e a vida.
As mãos tremiam, nervosas, como se fosse a primeira vez... a ordem das coisas nunca parecia respeitada. A pouco e pouco a liberdade ia-se conquistando, a cada passo inseguro.
No fim, a pacífica calma tomou conta de mim, como em todas as outras vezes, encheu-me o peito com aquele vazio branco e doce da harmonia.
Fica a crença de que os regressos nem todos são derrota, nem todos são abrigo.

Tentei distanciar-me de tudo, fugir... Pensei que ao afastar-me conseguiria libertar-me da dor.
Quis sair deste grito de socorro em que me tornei... rasgar o véu sufocante da desgraçada miséria.
A cada passo me senti mais fraco e dependente... talvez me tenha acobardado no receio galopante de atingir o fim.
Cheguei até a acreditar no poder abstergente da fuga mas a ridícula catarse redundou num espasmo psicótico e estéril...
Como sempre o auge, o êxtase, foi a constatação do logro que sou.
Voltei...
Agora que retorno, sinto-me ainda mais pequeno, um ser absorto e medroso ... e pensei que desta seria capaz... que era possível... talvez não seja...
Aqui me tens... humilhado e triste.
Tentei distanciar-me de tudo, fugir... Pensei que ao afastar-me conseguiria libertar-me da dor.
Quis sair deste grito de socorro em que me tornei... rasgar o véu sufocante da desgraçada miséria.
A cada passo me senti mais fraco e dependente... talvez me tenha acobardado no receio galopante de atingir o fim.
Cheguei até a acreditar no poder abstergente da fuga mas a ridícula catarse redundou num espasmo psicótico e estéril...
Como sempre o auge, o êxtase, foi a constatação do logro que sou.
Voltei...
Agora que retorno, sinto-me ainda mais pequeno, um ser absorto e medroso ... e pensei que desta seria capaz... que era possível... talvez não seja...
Aqui me tens... humilhado e triste.
O turbilhão passou. Agora a bonança tomou conta de mim.
A música exerceu o seu poder antipirético perante a revolta emocional.
A leitura serviu desta vez como um purgante...
Por vezes canso-me de mim próprio, nem sei quanto de verdade existe nas minhas palavras. Parece-me que enceno a vida...
Talvez tenha passado a vida a criar personagens que encarno e desfilo, uma a uma, e que depois abandono ao vento e à fome e quando morrem, morre mais um pedaço de mim.
Comecei lentamente a por em causa a minha descrença relativa à existência do destino. Não pode ser apenas acaso este meu fado, a minha sina. (Maybe it's just the karma police)
Recordo o refrão de uma música que me apetece gritar:
"e pudesse eu pagar de outra forma"...
Senti uma vontade enorme de fazer algo bonito e harmonioso. Como se uma súbita inspiração me brotasse da alma. O desejo da criação...
Peguei numa tela branca e fui deixando o pincel, ensopado em tinta vermelha, deslizar instintivamente.
Um traço, depois uma mancha a que se juntou outra, e outra ainda, de diferentes cores estridentes e formas rudes.
A mão pareceu-me mecanizada, autónoma, rabiscando freneticamente a tela que já fora totalmente branca. E a cada traço sentia-me mais eu no emaranhado de cores e formas, como se aquele conjunto pictórico fosse uma extensão de mim próprio.
No fim sentei-me frente a frente à tosca expressão de um momento impulsivo.
A calma tomou conta de mim... Uma paz pesada e densa.
Fui ficando tonto, devagar, como o voo de uma borboleta. Ainda não sei se da turbulenta expressão do sentir ou do cheiro dos óleos e da terbentina...
Esta noite a escrita não sai fluída...as palavras parecem deter-se na ponta dos dedos...
Talvez pelo vinho, um tinto maduro, que me deixou o corpo ainda mais sequioso, e o espírito dormente.
Talvez pelo adiantado da hora...

Sempre tive mais aptidão para escrever do que para falar...
a boca fica entre a cabeça e o coração e muito perto de ambos e as palavras tropeçam umas nas outras e atropelam-se...
as mãos estão mais distantes de ambos o que dá tempo às palavras para amadurecerem os pensamentos e arrefecerem os sentimentos...

Queria ter-te dito qualquer coisa...vi os teus olhos magoados e tristes...
Queria ter-te arrancado um sorriso... ver os teus olhos a brilhar...
Queria ter-te cantado uma canção...
Queria ter-te dado a mão...
Ao longe ouvia-se um piano...triste...que me foi afundando lentamente na tristeza,
entreguei-me em seus braços, recebi seus beijos tépidos.
Tentei adivinhar o teu cheiro no ar que respirava para te sentir mais perto.
Resignado pela tristeza serve-me a alegria de saber que existes...

Sunday, August 13, 2006

Olha meu amor à quanto tempo que eu estou aqui,
vivendo na lua e você aí longe de mim

Olha meu amor mesmo distante vive no meu coração,
não te esqueci
vou fingindo de viver
ah,se eu soubesse por onde você estar de foguete eu iria te buscar.

Sou o homem da lua
vivo aqui na solidão
longe do seu coração e a dor no peito

Sou o homem da lua
minha vida é te amar
e só volto a terra um dia por teus beijos,beijos

Olha meu amor à quanto tempo que eu estou aqui,
vivendo na lua e você aí longe de mim

Olha meu amor mesmo distante vive no meu coração,
não te esqueci
vou fingindo de viver
ah,se eu soubesse por onde você estar de foguete eu iria te buscar.

Sou o homem da lua
vivo aqui na solidão
longe do seu coração e a dor no peito

Sou o homem da lua
minha vida é te amar
e só volto a terra um dia por teus beijos,beijos